"Tempos difíceis"? Esse termo eu ouço desde muito menino, e olha que são décadas passadas! Não tantas, mas... algumas.
Mas o que realmente mudou aos meus antes pequenos olhos, hoje cansados olhos?
Eu não entendia muito bem algumas coisas, mas obedecia a maioria delas, pois acreditava que era sempre o melhor a fazer, pois essas "coisas" sempre vinham com o endereço remetente de pessoas que significavam muito pra mim. Que assentavam à volta da mesa em alguns fins de semana e, principalmente, no final do ano... ah... o final do ano!!!
Aos meus avós sempre tive muito respeito, admiração. Como eram especiais!!! Meus pais, a quem nunca ousei responder, não apenas por temer umas boas palmadas, que viriam com certeza, mas pelo simples fato de que meu coração não permitia! Minha Tia, me carregava pra lá e pra cá, me dava alguns, não poucos, puxões de orelha, figuradamente, me permitam, mas sempre me levava pra cá e pra lá. Lembranças e saudades eternas.
Eu sempre obedeci, em quase tudo, repito, mas em maior parte. Não questionava, pois eles eram algo que eu não compreendia com meus pequenos olhos, mas sentia imensamente com o coração. Sentia seu amor, seu carinho, e isto transferiu-se a uma autoridade, não imposta, mas cativada.
Hoje compreendo, ainda de tudo não entendo, mas sei que mesmo sem entendimento completo, o que foi, foi bom, e fez de mim um homem. Nunca me fez mal, nem me traumatizou. Eu aprendi a respeitar, obedecer, considerar, perdoar, amar... e quando teimei, teimei mesmo de minha própria teimosia, mas sempre limitada pela autoridade do amor. Isso fez com que navegasse por tempestades, sem me esquecer o caminho do porto seguro.
Assim, através deles, obedeci professores, inspetores, diretores, chefes, patrões, e olhem que cometi não poucas insubordinações!!! Mas sempre num limite em que eu pudesse alcançar o porto seguro.
Assim hoje, como Capitão do Porto Seguro, transmito a filhos, sobrinhos, alunos e futuramente netos.
Uma sociedade mais justa se constrói com reivindicação, muitas vezes com luta, mas sem perder de vista o porto da dignidade, do respeito, da valorização, da humanidade. Eu não posso manchar meu discurso de igualdade, fraternidade, por ocultar cabeças decepadas e corações dilacerados em meus bolsos.
Se queremos uma juventude sóbria em valores, devemos ser sinceros com ela. Palmadas sim, e muitas, porém eles devem ter a certeza de que quando caírem, essa mesma mão estará ali para auxiliá-los.
Pais são os primeiros e maiores responsáveis por seus filhos, porém, só comanda bem o capitão que está no navio e que é visto no leme da embarcação, principalmente nos momentos de tempestade. Esse é para o quem todos olham nos piores momentos da jornada, procurando sua liderança e seu apoio.
Se queremos filhos melhores, temos que construir pais melhores.
Essa relação de afeto e respeito não se compra com presentes. O que se compra com presentes é apenas interesse. Também não significa bajular e proteger de todos os detalhes da vida, mas que a palmatória esteja de mãos abertas nas quedas. De preferência bem perto, pra falar aos ouvidos: você pode levantar, você pode vencer.
Quando eu dizia para alguém: "não posso, pois minha mãe não deixa..." eu dizia com convicção e orgulho, pois era a desculpa mais verdadeira que eu poderia dar para aquilo que eu não desejava fazer. Hoje, se essa frase for dita, é por muita, muita imposição e opressão ditatorial maternal. E será pronunciada com muita vergonha.
Meu pai não podia me dar presentes, mas eu adorava o cheiro da pasta onde ele carregava sua marmita para o trabalho, e não via a hora, sempre noturna, de sentir esse cheiro chegando na cozinha de casa.
Se eles estivessem aqui ainda, eu os obedeceria, sempre, mesmo não compreendendo totalmente, mas obedeceria, pois sempre foi o melhor que carreguei comigo, apesar de todas as minhas teimosias.
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